ESG: onde termina a empresa e começa o consumidor

Em Portugal, está instalada a indignação.

Com a nova política de cobrança de €0.10 por garrafa ou lata, tem surgido a contestação. Afinal, segundo os contestatários, cada consumidor é indiretamente recrutado como operário não pago das grandes superfícies.

Mas não é só a questão financeira. Como as máquinas só reconhecem o material inteiro, não se pode esmagar. É verdade. O enorme problema de todos os consumidores que sempre esmagaram garrafas e latas, praticamente uma nação dentro de outra nação: os esmagadores de garrafas e latas.

E a humilhação de carregar lixo e “perder tempo em filas humilhantes”? Praticamente mendigar um dinheiro que era originalmente do consumidor (normalmente quem defende isto também gosta do discurso de “eu pago o seu salário” para autoridades policiais ou repartições públicas).

E a incrível jogada de reembolsarem com um talão que pode ser usado em nova compra na mesma superfície? Como se alguém fosse a um supermercado só para devolver garrafas, como se não fosse um processo simples de comprar algo, incluindo garrafas, quando volta para comprar mais coisas, aproveita e leva as garrafas, recebe o talão, faz as compras, desconta o valor no talão.

Na Alemanha a taxa de devolução é de 98%, segundo dados de fevereiro de 2026.

Será que em Portugal as pessoas são menos capazes de devolver uma garrafa?
Será que separar o lixo também signfica trabalhar para uma câmara municipal? Ou não se enquadra por não ser necessário estar em “filas humilhantes”?

Ainda me lembro de ir ao Inô com os meus pais devolver garrafas de vidro usando exatamente a mesma lógica. Falamos da década de 80, ou seja, nem é algo inovador, é um regresso a algo que se fazia de forma natural.

Em 2026 isso é algo tão complicado que leva a um boicote?

Mas, não são só garrafas e latas, nem é só Portugal.

No Brasil, várias cidades adotaram a cobrança de sacos de plástico. O resultado, nesse caso, é mais discutível. Afinal, as pessoas começaram a usar “bags for life”, ou ou “ecobags”, com uma consequência que tem sido debatida. O uso de sacolas para o lixo, quando havia uma reutilização lógica. É verdade que as sacolas que são vendidas, em princípio, são recicladas ou são reutilizáveis, o que diminui a quantidade de resíduos plásticos.

No Brasil, perante a falta de recolha separada de lixos, não se coloca o caso de usar caixas de cartão ou sacolas de papel para colocar papel ou pelo menos para levar os resíduos de vidro, metal e plástico para os contentores de recolha. Isso deixaria uma necessidade reduzida de sacolas de plástico apenas para resíduos orgânicos. Ou seja, redução do uso de plástico. Lógico para Portugal, ainda não aplicável no Brasil.

Aliás, quando a cadeia de supermercados Lidl chegou a Portugal, as pessoas sabiam que não havia sacos de plástico, usavam ecobags ou caixas que encontravam. Não me lembro de carpideira comunitárias. Quem não queria andar com caixas na mão, não ia ao Lidl.

São dois casos em que percebemos que se aplica o princípio de “cada um faz a sua parte”. As empresas fazem a sua parte, os consumidores também. Não se trata ser funcionário ou de receber um dinheiro que sempre foi seu. É uma questão de não ser cobrado por cumprir o seu papel de cuidar do meio-ambiente. Pagou, foi reembolsado.

O incentivo financeiro é relativamente simples…
O cinto de segurança começou a ser usado quando foram implementadas multas para quem não usasse. Não foi por consciência individual.

O que faria sentido seria contestar o pagamento extra em viagens aéreas. Afinal, a proposta é a compensação da pegada de carbono. Paga o consumidor, mas depois os resultados são apresentados como mérito da empresa.

Entre as manobras de marketing, a cultura de ESG e o papel de cada um na sociedade, seria importante que houvesse uma consciência ambiental de preservação do que podemos cuidar com pequenas atitudes.

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