Brasil é um dos potenciais beneficiados das tarifas de Trump

As tarifas dos EUA atingiram aliados de longa data e parceiros comerciais próximos, incluindo União Europeia, Japão e Coreia do Sul, mas, segundo a Reuters, países como Brasil, Índia ou Quênia podem sair beneficiados do processo, apesar das possíveis consequências da recessão.

O Brasil é um dos países com menor tarifa “recíproca” dos EUA. ficando pelos 10%. Mas, além disso as tarifas retaliatórias da China devem favorecer os restantes exportadores agrícolas dos EUA.

Países com déficits comerciais com os EUA podem aproveitar as circunstâncias, enquanto aqueles que têm grandes superávits e foram duramente atingidos por Trump. De um lado, Bangladesh e Vietnam, do outro Marrocos, Egito, Turquia e Singapura. Os primeiros enfrentam tarifas de 37% e 46%, os restantes, à semelhança do Brasil, estão no clube dos 10%.

“Os EUA não impuseram tarifas apenas ao Egito”, disse Magdy Tolba, presidente da joint venture egípcia-turca T&C Garments. “Ele impôs tarifas muito mais altas a outros países. Isso dá ao Egito uma ótima oportunidade de crescer.” Tolba apontou China, Bangladesh e Vietnam como principais concorrentes do Egito em têxteis. “A oportunidade está à vista”, disse ele. “Só precisamos de agarrá-la.”

A Turquia, cujas exportações de ferro, aço e alumínio foram afetadas pelas tarifas anteriores dos EUA, agora pode se beneficiar, mas através das taxas ainda maiores impostas aos seus concorrentes. Daí que o Ministro do Comércio Omer Bolat tenha chamado as tarifas sobre a Turquia de “as melhores das piores”.

Marrocos, que tem um acordo de livre comércio com os EUA, é outro potencial beneficiário relativo da dor da UE e das antigas potências asiáticas. “A tarifa é uma oportunidade para Marrocos atrair investimentos de investidores estrangeiros dispostos a exportar para os EUA, dada a tarifa comparativamente baixa de 10%”, disse um ex-funcionário do governo, que não quis se identificar.

Rachid Aourraz, economista do Instituto Marroquino de Análise Política (MIPA), um think tank independente em Rabat, observou que as indústrias aeroespacial e de fertilizantes do país ainda podem sofrer um golpe. “Embora o impacto direto pareça limitado, dado que os EUA não são um grande mercado para as exportações de Marrocos, as ondas de choque criadas pelas tarifas e o espectro da recessão podem impactar o crescimento econômico marroquino”, disse ele.

O Quênia, e os seus produtores têxteis juntam-se a este grupo de previsíveis beneficiados no cenário de países menos afetados pelas tarifas versus países mais afetados pelas tarifas. No entanto, o continente africano está prestes a revelar os resultados dos recentes megainvestimentos chineses, como é o caso dos US$ 6,5 bilhões da Gotion High Tech, a primeira gigafábrica de África, em Kenitra, a norte da capital marroquina. A imprevisibilidade das medidas de Trump podem gerar novas medidas retaliatórias.

Na cidade-estado de Singapura, a economista da OCBC, Selena Ling, afirma que “A história absoluta é que não há “vencedores” se os EUA e/ou a economia global atingirem uma parada brusca ou recessão”. “É tudo relativo.” Por seu lado, o economista do Maybank, Chua Hak Bin, acrescentou: “Singapura não pode vencer na guerra comercial global, dada a forte dependência do comércio.”

A Índia, a braços com uma tarifa de 26%, pode sair beneficiada perante a lógica do “melhor dos piores” entre os seus rivais asiáticos. Segundo uma avaliação interna do governo compartilhada com a Reuters, a Índia pode ganhar vantagem nos setores têxtil, vestuário e calçados. O Ministério do Comércio da Índia disse, logo após o anúncio público das tarifas, que estaria “estudando as oportunidades que podem surgir devido a esse novo desenvolvimento na política comercial dos EUA”.

A Índia ainda pode receber uma boa notícia da Apple, caso se confirme a mudança da produção do iPhone da China por causa do diferencial tarifário. Ainda assim, a tarifa de 26% deixaria o preço do smartphone substancialmente mais caro.

No mercado de commodities da América Latina, que engloba produtos que vão do cobre aos grãos, as tarifas da administração Trump reavivaram o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia. O Brasil pode ser o principal beneficiário, principalmente ao recordar o primeiro mandato de Trump, e a vendas exponenciais dos produtores brasileiros de soja e milho, após a China bloquear os agricultores dos EUA.

Segundo Graham Stock, estrategista sénior de mercados emergentes da RBC BlueBay,o México não sentiu as medidas de Trump, uma vez que tem a maior parte de seu comércio protegido pelo acordo comercial USMCA negociado durante o primeiro mandato de Trump. No entanto, diz Stock, “os ativos mexicanos estão lutando mais do que outros porque o México está muito exposto à economia dos EUA e, no final das contas, a política comercial de Trump é um enorme ato de automutilação para a economia dos EUA”.

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